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O sommelier e o vinho brasileiro

A principal atividade do sommelier é servir vinhos e outras bebidas. E servir é uma atividade extremamente nobre, pois não só está envolta em cuidados, como cria profundos laços entre as pessoas

Por Júlio César Kunz

Oconvívio em torno de uma mesa é algo notável e será sempre muito mais agradável com o atendimento daquele que, segundo Giuseppe Vaccarini, o melhor sommelier do mundo em 1978, “sabe transformar qualquer ocasião à mesa em um acontecimento inesquecível”. É claro que para que a magia aconteça, esse profissional precisa saber muito mais do que abrir e servir uma garrafa. De nada adianta todo estudo requerido sobre diferentes regiões, regras de serviço, harmonizações, dentre outros, se não houver as duas pontas de sua razão de existir: alguém que queira beber algo e outro alguém que elabore a bebida. Por isso, servir corresponde a criar vínculos, unir pessoas.

A ABS-RS, enquanto instituição formadora e agregadora de sommeliers, organizou, em 4 de junho, a Jornada do Sommelier e do Vinho Brasileiro, no coração do Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul. Quase 200 pessoas acompanharam presencialmente, além daquelas que assistiram à transmissão ao vivo pelo canal do YouTube da instituição. Foi um dia de intensas discussões, com profundidade de informações sobre o futuro da profissão e do vinho no Brasil. Todos os presentes puderam degustar vinhos brasileiros, harmonizados com pratos elaborados pelo chef Fabio Lima, que comanda os restaurantes do Spa do Vinho, sede do evento. Foi um momento de aproximação de pessoas, a primeira grande atividade presencial que realizamos depois do início da pandemia de Covid-19.

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Sendo nosso objetivo unir sommeliers e amantes do vinho em torno dessa paixão comum, não acreditamos em meras coincidências. O fato de o Dia do Sommelier (comemorado nessa data em razão da fundação da Associação da Sommellerie Internationale ter ocorrido em 4 de junho de 1969, à qual a ABS faz parte) e o Dia do Vinho (oficializado no RS em 2002) serem celebrados na mesma semana nos diz muito – por isso, festejamos as duas datas em um só evento. Já no primeiro painel, a jornalista Suzana Barelli mostrou a evolução do mercado brasileiro, especialmente a partir dos anos 2000, com um incremento substancial na variedade de rótulos em nossas prateleiras, por causa das importações, fazendo, desde então, ser o sommelier um profissional decisivo para os consumidores. A sequência ficou por conta do escritor Rogério Dardeau, que nos atualizou com as importantes expansões territoriais e conceituais de nossos vinhos – com mais opções de rótulos verde-amarelos aos profissionais da área.

Em um segundo momento, uma mesa- redonda, presidida por nossa colega Andreia Gentilini Milan, discutiu os dados mais atuais do mercado brasileiro. Com a presença de Júlio d’Agostini, Elisa Walker, Angélica Brandelise, Felipe Guarnieri e Gontijo Jordan Pinto, discutimos a importância do sommelier no serviço, em lojas, e do quanto é fundamental que os profissionais estejam preparados para trabalhar também nos meios digitais. Analisamos a complexidade que envolve o bem servir, não se limitando às quatro paredes de um restaurante, de uma loja ou de um wine bar, mas abrangendo as áreas da comunicação e também do engajamento para garantir a boa procedência dos produtos e trabalhando para inibir o descaminho. Contratar um sommelier é um bom negócio.

Após o almoço harmonizado com oito pratos e vinhos de nove vinícolas, Deborah Villas-Bôas Dadalt, em sua apresentação sobre gestão avançada em enoturismo, deixou claro que não basta paixão, é preciso profissionalismo. Após sua explanação, em que abordou diversos temas pertinentes, como investimentos para ampliar o consumo e a precificação, foi a vez de falar o atual melhor sommelier do Brasil, Renato Neves, formado pela ABS-Rio. O carioca reforçou que não basta apenas estudar, mas é necessário participar da gestão do negócio e colocar muito empenho na busca de uma aproximação com as vinícolas de todas as origens. Juntamente com Babiana Mugnol e Deisi da Costa, melhor sommelière do Rio Grande do Sul, percebemos que é um trabalho que precisa ser feito em conjunto: por um lado, produtores mostrando seus rótulos e “abrindo garrafas” (talvez a frase mais repetida no dia) e, por outro, sommeliers sedentos por conhecer a grande diversidade e qualidade dos vinhos de todo o mundo, inclusive do Brasil.

A ABS/RS está junto para fazer crescer e aprofundar a cultura gastronômica brasileira

Nós, da ABS-RS, também servimos conhecimento para apaixonados por vinhos, não importa em que lugar do mundo do vinho estejam. Desde profissionais que trabalham em vinícolas, passando pela distribuição, lojas e restaurantes, até os consumidores, acreditamos que informações nunca são demais. Parafraseando Kant, me arrisco a dizer: paixão sem conhecimento é cega, conhecimento sem paixão é vazio. O mundo das bebidas é rico em cores, sabores e histórias – e precisamos aprender sobre elas. Em um passado não muito distante, sommeliers e vinhos brasileiros foram erroneamente colocados em arenas diferentes. Hoje, é evidente que estamos juntos para fazer crescer e aprofundar a cultura gastronômica brasileira. Tentei trazer um gostinho do que foi o nosso saboroso encontro da jornada, mas se você se interessar por acompanhar as discussões, as palestras gravadas estão disponíveis em nosso canal do YouTube, clique aqui para assistir.

Um brinde aos sommeliers e ao vinho brasileiro!

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Prazeres da Mesa

Lançada em 2003, a proposta da revista é saciar o apetite de todos os leitores que gostam de cozinhar, viajar e conhecer os segredos dos bons vinhos e de outras bebidas antecipando tendências e mostrando as novidades desse delicioso universo.

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