NotíciasViagens

Roteiro do tempo

Os Caminhos de Pedra, em Bento Gonçalves, preservam história e sabores de imigrantes italianos

Quando chegaram ao Sul do país, por volta de 1875, os imigrantes italianos mostraram como fazer uso das pedras que lhes apareciam pelo trajeto. Sapateiros, marceneiros, costureiras e, claro, cozinheiros caminhavam até se estabelecer em comunidades que os necessitassem. O resultado foi uma influência tão forte na população local que originou até mesmo um dialeto, o talian, também conhecido como variante brasileira da língua vêneta, do norte da Itália. Assim, como quem levanta peça por peça, as influências do País da Bota chegaram mansas e se enraizaram nas colônias Conde D’Eu e Dona Isabel, que hoje correspondem às cidades de Garibaldi e Bento Gonçalves, respectivamente. Regiões cortadas pelas linhas Palmeiro e Pedro Salgado.

cAMINHOS DE pEDRA

Em 1987, percebeu-se que essa rota tinha um grande número de casas antigas feitas de pedras e potencial turístico, mas lhe faltava preservação. Assim, o engenheiro Tarcísio Vasco Michelon e o arquiteto Júlio Posenato idealizaram os Caminhos de Pedra. Um roteiro para glutão nenhum botar defeito e que funciona os 365 dias do ano.

Continua após o anúncio

Logo no início do trajeto, dona Santina e seu Severino Predebon revelam a simplicidade em doces e compotas produzidos nos 15 hectares da propriedade. Há 68 anos no mesmo local, o casal faz 15.000 vidros de gulodices por ano. Antes de trabalhar com o marido, dona Santina vivia na roça da colônia e ajudava na colheita da uva. Hoje, produz receitas que são um acalento para a alma.

De chinelos, o casal recebe turistas em uma garagem decorada com fotos de família e mesas repletas de receitas típicas de casa de avó. Quitutes feitos no tacho ao fogo de lenha, seguindo os ensinamentos maternos, repassados de geração em geração.

“Aprendi a fazer schimia com minha mãe. Quando comecei a produzir por aqui, os clientes que compravam  voltavam para pedir mais. É um doce que não é duro nem líquido, mas, na textura, bom para passar no pão”, conta Severino, sobre a produção típica da região.

Além das compotas, doces de corte chamam atenção, como o de pêssego, pera e figo, sem contar o tradicional de goiaba e uva. “A uva é embalada em tambor e ferve no tacho até ficar mais dura. A diferença do doce de corte é o tempo de fervura”, diz Santina, que, posicionada na porta da cozinha, observa o preparo ao fogo.

Carro abastecido de geleias e compotas, hora de seguir para a próxima parada, a Casa do Tomate, também chamada de Il Cantuccio del Pomodoro e della Gasosa. Por lá, é possível encontrar 48 itens feitos com tomate,  desde tradicionais, como sucos e molhos, até outros mais inusitados, no caso de chocolates e cervejas – sendo que estas levam tomate seco durante a fermentação e são produzidas em Nova Petrópolis, cidade vizinha.

O fruto, porém, não é colhido na propriedade desde 2011, quando o fungo Fusarium se alastrou pela plantação e impossibilitou a continuação do processo. Apesar disso, uma cozinha abriga as despolpadoras e as máquinas de secagem e pode ser vista através do vidro, enquanto uma guia do local narra a história da região.

Há ainda refrescos com gás, que resgatam a tradição do local onde, antigamente, era comum a produção de gasosas. Tão comum que, durante o baile, os rapazes ofereciam a bebida à menina em que estavam interessados e, se ela aceitasse, significava que o sentimento era correspondido. Caso a guria apenas tomasse o refrigerante e não saísse com o pretendente, ficava malfalada. O hábito deu origem ao ditado popular “Não foi de palavra nem com a gasosa, imagina com o resto”.

Mais adiante, uma visita lúdica e que vale a parada, principalmente para as crianças. Na Casa da Ovelha são revelados produtos como iogurtes e queijos feitos com leite de caprinos e sem glúten ou lactose. O resultado são alimentos que, de tão saborosos, nos fazem querer comer tudo de uma só vez. O espaço foi construído em 1917 e estava para ser demolido quando os administradores da Casa da Ovelha o compraram. A arquitetura foi restaurada e levada de caminhão até os Caminhos de Pedra. “A ideia era fazer algo inédito e trazer emprego à região. Hoje, são 21 funcionários”, afirma Rodrigo Ricieri, responsável pelo marketing.

Por lá, os visitantes podem também conferir a amamentação dos filhotes, a tosquia, o pastoreio, a alimentação dos animais, a ordenha e ainda fazer um passeio de trator. No total, são mantidas 1.200 ovelhas da raça lacaune, porém são deixados na propriedade entre 300 e 500 carneiros, enquanto os demais são distribuídos em outras quatro fazendas.

A produção varia de 40 a 80 litros de leite por mês, sendo que no verão há menos ordenhas para não estressar o rebanho. O portfólio da casa varia de tempos em tempos. Houve época em que era fabricado um queijo como o português Serra da Estrela, mas o alto custo e a dificuldade de transporte para outras regiões inviabilizaram a comercialização. Há novidades que em breve deverão chegar tanto às gôndolas da loja quanto a pontos de venda espalhados por todo o país. São elas: leite de ovelha em pó, condensado e o queijo fondant. “As ideias surgem em reuniões mensais de funcionários e são testadas por todos antes de entrar na linha de produção”, afirma Rodrigo.

Enquanto isso, não deixe de provar e levar para casa os iogurtes – destaque para o de framboesa – e os queijos maturados por até 270 dias, de sabor intenso e marcante e que vão bem com vinhos ou ralados sobre massas. Ainda estão armazenados laticínios que devem amadurecer por 500 a 1.000 dias. Vamos aguardar.

A Salumeria aparece na sequência do trajeto. A casa,  especializada em embutidos, é comandada por Fabiano de Borba há três anos, mas há menos de um ocupa esse espaço nos Caminhos de Pedra. “A ideia era ter um local especializado em salames e que oferecesse degustação”, diz o proprietário. Entre as produções, merece destaque o culatello, feito com cravo-da-índia e especiarias. “Recebemos a carne de diferentes produtores e criamos receitas de acordo com a sazonalidade dos ingredientes. Há ainda exclusividades, como linguiça de javali, culatello e estilo finocchio, feito com toque de erva-doce.” Se levar para casa, uma dica do produtor é, após o primeiro corte, manter o embutido na geladeira embalado em filme plástico e pote bem vedado. Assim, a durabilidade do alimento é estendida para quatro meses.

Em um reduto italiano, não poderiam faltar as receitas de macarrão e torta. A Casa das Massas está há dez anos na rota gourmet e comercializa desde biscoitos até massas frescas. Em uma porta com acesso restrito, é possível observar a cozinheira em meio a máquinas de pasta, que em breve ocuparão as prateleiras do estabelecimento. Entre as iguarias da nonna,  ênfase para o biscoito de nozes e chocolate em que a massa é feita apenas com ovo e farinha, e sem água, para garantir que fique seca e firme.

Por fim, não poderia faltar a cultura do gaúcho. Na Casa da Erva-Mate, os turistas podem aprender sobre o processo de produção, da semente à degustação do chimarrão na cuia. Assim que a erva é colhida, é levada para a sapecadeira, um cilindro movido a água que faz com que os galhos caiam do outro lado até que 30% da umidade seja extraída. Na sequência, o produto vai para o barbaquá, onde fica em uma espécie de torre disposto em uma tela a 10 metros de distância do calor por aproximadamente 15 horas. “Ao passar primeiro pela sapecadeira, evitamos que as folhas enegreçam ou fiquem amargas”, diz Jaqueline Ferrari, proprietária do espaço.

Depois, é a vez da quebra. O ingrediente vai para a cancha, que o deixará em pedaços grossos. Para o consumo, a planta ainda precisa passar pelo socador, equipamento movido a água com um pilão com lâminas na ponta. Cada vez que essas placas giram, fazem cortes em diferentes direções.

O resgate da tradição ganha ainda mais força com as máquinas do início do século XX em pleno funcionamento. Uma experiência que faz vibrar a cada batida do pilão. Ao final, todos são convidados a saborear a bebida gaúcha e a conhecer tanto os alimentos quanto os cosméticos feitos com a erva-mate. Lembre-se: é falta de educação devolver a cuia antes de ouvir cantar o canudo.

Se a fome ainda apertar, aproveite para experimentar um dos restaurantes que ficam nos Caminhos de Pedra. Pé na estrada, mapa na mão e bom apetite!

 Fora da rota

Apesar de ter a propriedade próxima aos Caminhos de Pedra, Marejane Detone não tem espaço para a visitação de clientes. Nem por isso os produtos deixam de ser degustados. Potes com o rótulo Casa da Serra estão espalhados por diversos estabelecimentos do trajeto turístico e podem ser saboreados sem medo. “Há 20 anos, comecei a fazer geleias e hoje vendo aproximadamente 20 sabores. Por ano, produzo de 8.000 a 10.000 quilos de doce”, afirma.

Um pouco mais distante, a 20 quilômetros de Bento Gonçalves, Cirley dos Santos Lorenzatti comanda o Sabores da Montanha, que fabrica frutas cristalizadas e secas, além de schimia e geleias, especiais como gengibre. “Plantamos todos os ingredientes, com exceção de abacaxi, maçã e banana. Também produzo geleias sem açúcar para diabéticos”, diz. Cirley tem pontos de venda no comércio e em casas de produtos naturais.

Por Isabel Raia, de Bento Gonçalves

Fotos Ricardo D’Angelo

Mostrar mais

Isabel Raia

Na equipe desde 2014, Isabel Raia é editora de Prazeres da Mesa. É formada em jornalismo, pela PUC-SP e pela Universidad de Castilla-La Mancha (na Espanha), e pós-graduada em Cozinha Brasileira, pelo Senac. Isabel tem na gastronomia uma de suas grandes paixões (principalmente se a receita incluir queijo ou chocolate).

Artigos relacionados

Leia também
Fechar
Botão Voltar ao topo