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Uma conversa franca com a diretora da Moët Hennessy no Brasil, Catherine Petit

Uma pequena revolução está acontecendo no grupo Moët Hennessy, o conglomerado que controla a Chandon no Brasil

O visual da marca e dos rótulos está sendo mudado e voltou a estar mais próximo da gastronomia. No Brasil, a mudança coincide com a chegada da francesa Catherine Petit para o cargo de diretora da Moët Hennessy no país. Personalidade vibrante e apaixonada pelo mundo do vinho e por desafios, ela aposta no trabalho artesanal da elaboração dos espumantes da Chandon, desde o plantio e colheita das uvas até o trabalho na adega, para continuar o crescimento da qualidade e a conquista de mercados. Catherine Petit começou no grupo já no Brasil, em 2007, atendendo a parte regional, que cobre América Latina, Caribe, África e Canadá. Em 2016, ela foi cuidar de parte da África e Oriente Médio, com base em Paris. Mas, em 2020, foi novamente convocada para voltar ao Brasil e assumir o cargo atual. A seguir, a entrevista que Catherine concedeu a Prazeres da Mesa.

 

Prazeres da Mesa – Como foi voltar ao Brasil?

Catherine Petit – Aceitei na hora. É um belo desafio, gosto muito do Brasil. E é um avanço em minha carreira.

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Como francesa, você sempre tomou vinho, certo?

Sim, sempre. Sou francesa. Quando trabalhei na Argentina descobri o Malbec. No Brasil, na primeira passagem, conheci bem os espumantes.

 

E essa mudança de imagem já estava prevista?

Foi um trabalho que levou dois anos. Um trabalho de reflexão que a Maison Chandon quis fazer, uma volta às raízes da empresa. Repensar sua mensagem e seus valores. Voltar a uma plataforma por dois motivos. Primeiro, que os países mais “tradicionais” – uma vez que temos vinhedos em seis países, mais Brasil, Argentina e Estados Unidos – precisavam se reinventar e se modernizar. Depois, que os consumidores, que estão evoluindo, têm cada vez mais interesse em conhecer melhor o que estão bebendo. Nesse trabalho de mais de dois anos, a Chandon se deu conta de que não estava informando corretamente sobre o terroir, sobre suas raízes e o carinho que mantém pelos vinhedos. A Maison Chandon quis melhorar sua comunicação e informar o trabalho que faz em comunidade. Claro que a imagem visual precisava ser modernizada, mas foi todo um conjunto. É uma plataforma rica e grande com que queremos comunicar e informar o consumidor.

 

E qual o desafio de mudar a imagem e informar que a qualidade continua a mesma?

Na verdade, são dois recados: a sua Chandon com novo visual – é uma das frases que usamos, quando falamos desse novo rótulo. E, claro, também voltar a falar de nossa grande qualidade. Tínhamos deixado um pouco de lado a questão de informar que nosso espumante é feito com carinho, com o maior cuidado e alto nível, com a escolha muito criteriosa das uvas e o cuidado com os vinhedos o ano todo. E falar de nossa vontade de ter um vinhedo certificado por nossas práticas sustentáveis. Na verdade, deixamos de comunicar porque achamos que seria o óbvio e que por ser Chandon já estivesse comunicado que o produto é de grande qualidade.

 

Nesses últimos anos, você acha que a Chandon ficou afastada do mundo da gastronomia? Esse movimento também é uma retomada com o setor?

Acho. Na verdade, fiquei fora durante quatro anos e quando voltei achei que houve um distanciamento. Nossa família é a gastronomia, os restaurantes. Temos produtos que são identificados com harmonizações. Deixamos isso um pouco de lado. Agora, estamos voltando a compartilhar os grandes momentos à mesa.

 

Nos últimos meses, por causa da pandemia, temos observado que o consumo de vinho aumentou, mas também teve mudanças de comportamento. Vinhos, como espumantes mais doces, que as pessoas não bebem em restaurantes, tiveram aumento de consumo, já que em casa estariam mais, digamos, “liberados”. Vocês notaram isso em sua linha de produtos?

Sim. Nós reparamos isso também. Vimos nosso consumo crescendo em outras linhas. Os valores de sustentabilidade também fazem com que o consumidor se preocupe ainda mais com o que ele está bebendo. Por isso, estamos no timing perfeito para as mudanças que queremos fazer.

 

Mas vocês tiveram aumento de vendas no Passion e no espumante demi-sec.

Tivemos muita venda de Passion. O demi-sec sempre se comportou bem. O Passion é que surpreendeu, cresceu muito.

Foto: Divulgação

 

Quando há esse tipo de mudança, a Chandon consegue aumentar a produção desses vinhos e atender o consumidor?

Nosso processo de produção é conhecido. Então, não mudamos, temos um tempo de repouso dos vinhos e não vamos encurtar esse tempo. É um desafio. Fomos pegos de surpresa com essas mudanças, mas agilizamos o processo de planejamento e, para este ano, com nossos vinhos base, guardados em Garibaldi, vamos conseguir atender a demanda.

 

Vocês lançaram recentemente dois espumantes safrados, antigos, em garrafas magnum. Os enólogos têm liberdade para sugerir novos produtos?

Temos dois tipos de novos produtos. Isso fez parte dessa reflexão de dois anos. Nesses magnum de Excellence, o objetivo é trabalhar mais, conversar com os especialistas, mostrar os safrados, enfim, é nosso savoir faire. E esse conceito de safrado ainda não é tão desenvolvido no Brasil e é voltado para os especialistas. Foi uma iniciativa de nosso diretor e enólogo Philippe Mével, de acordo com os outros enólogos. Outros lançamentos podem acontecer em coordenação com os demais países que produzem Chandon.

 

O Chandon Brasil é exportado?

Vendemos um pouco de Passion para o Japão. Paramos no início da pandemia e, agora, devemos voltar a exportar.

 

Qual foi o principal desafio neste último ano, uma vez que o espumante é a bebida das festas, dos eventos, enfim, o que não aconteceu?

Os brasileiros adoram comemorar e festejar. Eles são otimistas, sempre veem o copo meio cheio e não meio vazio, e essa é uma das coisas que admiro muito no país. As comemorações ficaram pequenas, mais intimistas, e isso ajudou o consumo para compartilhar os momentos bons com a família e com os amigos. E já estamos na onda de recuperar o tempo perdido.

 

Você chegou ao Brasil e logo veio a quarentena. Portanto, ficou a maior parte do tempo trancada. Fora essas mudanças já anunciadas, quais os planos da marca?

Estamos trabalhando cada vez mais em um projeto de imersão e de divulgação dos valores da marca, de educação, no propósito de comunicar ainda mais nossa filosofia. Assim, devemos lançar outros produtos.

 

A mudança no visual foi bem radical, ficou clean e elegante. Como funcionou o processo?

Foi iniciado na França e, em seguida, teve a participação das seis adegas e dos consumidores. Envolveu muita gente, com diversos pontos de vista e com inclusão, o que reflete bem os valores da marca: coragem, colaboração, inclusão e qualidade.

 

Quais são os desafios que o mercado brasileiro coloca para vocês?

A concorrência é um desafio, mas é saudável, porque nos deixa atentos e faz com que procuremos nos aprimorar. Mas acho que com esse maior interesse do consumidor sobre o mundo dos vinhos e ao mesmo tempo com a sustentabilidade, é uma vantagem grande que temos. Lembrando que nossos espumantes são os melhores.

 

É quase unanimidade que o espumante Chandon é o melhor vinho produzido no Brasil. Você acha que ainda há espaço para crescer na qualidade do espumante?

Sempre há espaço para crescer. Temos muitos desafios para isso. As mudanças climáticas, por exemplo, para sabermos que rumos terão nossos vinhedos. Também vamos investir na adega e, cada vez mais, em busca das certificações. Ao alcançá-las, teremos melhorado.

 

O enoturismo está ficando mais forte. Quais os planos da Chandon nesse tema?

Devemos fazer um espaço especial para receber as pessoas nos próximos anos. Teremos novidades em breve.

 

Estive recentemente na Chandon e fiquei encantado com o trabalho artesanal feito nos vinhedos e com os demais processos. Como comunicar isso?

Tendo a oportunidade de receber os nossos consumidores, de mostrar como trabalhamos e, claro, de falar sobre todo esse trabalho que está sendo feito. Vamos mostrar como trabalhamos em comunidade e voltados para a educação e a melhor qualidade.

 

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Ricardo Castilho

Ricardo Castilho é diretor editorial de Prazeres da Mesa

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